A Face Oculta da Vida
Malu Morais
Lagoa de Marapendi
Condomínio Santa Mônica
Barra da Tijuca - Rio
Manhã de domingo - 1990
Não são límpidas, muito menos cristalinas, as águas da minha lagoa. Hoje estava a reparar nesse detalhe. São turvas, quase negras, como a negritude da lua quando nos esconde a sua face.
Pensei comigo - não seria a típica lagoa a ser cantada em prosa e verso. Talvez, nem mesmo lhe fosse dado o nome de lagoa, tão mais próxima está de um charco, de um pântano, por conta da poluição que lhe impuseram.
Olho o lodo que se forma em suas bordas. Folhas trazidas pelo vento flutuam em decomposição. Em alguns momentos, um odor levemente desagradável é trazido pela brisa que sopra. Paradoxalmente, esse lugar me atrai, me prende, me fascina - mistérios da natureza humana.
É previsível a atração pelas águas translúcidas, pelo brilho do sol, pela lua cheia - pelo cheiro de coisa limpa.O que se oculta nas sombras, assusta, ameaça,afasta...E vamos nos prendendo às aparências das coisas reluzentes.Ficamos na sala de visita e não descemos ao porão. Olhamos a máscara da face e não atentamos para o que se passa no íntimo do coração. Convivemos com a exuberância contagiante da alegria e mal toleramos a tristeza de quem sofre.Tocamos trombetas para o desfile dos nossos traços positivos e trancamos a sete chaves as forças primárias, menores, da nossa natureza - ressaltamos a persona e negamos a sombra.
Volto a contemplar a minha lagoa e não posso deixar de registrar que, apesar das águas turvas, ela abriga vida - formas primitivas de vida, talvez, mas, mesmo assim, vida...
Lembro que a lua nova não deixa de ser lua por estar em sombras.
De sua face escura, gradualmente, surge uma luminosidade crescente, que culmina na plenitude da lua cheia.
Marés sobem, marés descem, marés tornam a subir e, novamente, descem, em fluxo/refluxo contínuos.
Assim como a vida que flui e refui, num misto de momentos - ações e reações que se alternam em movimentos polarizados, mas, contraditoriaamente, complementares.
Assim como o homem que não teme mergulhar nas profundezas do seu mundo interior e aceita prescrutar as suas sombras, tanto quanto vivenciar a sua própria luminosidade.
Assim como a irrefutável certeza de que, para se assistir ao sol nascer, é imprescindível a paciência de viver a noite e esperar que se vá a madrugada...

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